Para Gonçalves, a atual falta de atualização não tornaria o índice ruim. Ele lembra que os pesos de bens e serviços são atualizados também pela variação de preços – ou seja, quando um produto fica mais caro, ele pesa mais no índice. Além disso, ‘locação de DVD’ pesa só 0,11% no IPCA, por exemplo. O gerente prefere não dar prazo para a atualização. Quando o IBGE realizou a POF 2007/2008, a reponderação do IPCA ocorreu só em 2012.
“Acho que grupos como alimentação, transporte e habitação tendem a continuar com peso importante no índice. O que pode mudar são seus componentes, com a saída de um item e a entrada de outro. No campo da alimentação, que representa um quarto do IPCA, não se inventou nada desde a última pesquisa. Escola, aluguel, transporte público e gasolina continuam sendo componentes importantes do custo de vida”, disse.
Segundo o economista André Braz, coordenador do Índice de Preço ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembra que a última POF foi realizada em momento de maior “pujança” da economia, quando o perfil de consumo tenderia a ser diferente do atual ciclo de saída da crise. Naquela POF retratou-se o consumo de classes sociais em ascensão, como carro novo e cursos extras.
“Como a economia é cíclica, você precisa renovar esses pesos com frequência. Despesas com serviços privados tendem a ter peso menor no orçamento hoje, por causa da crise e desemprego. Famílias não abrem mão de alimentação, mas podem deixar de ir ao cinema”, afirma o Braz. “Se demorar muito a identificar mudanças de consumo, você corre o risco de jogar uma inflação irreal no índice de preços.”
Como o IPCA baliza a política de monetária, o economista afirma que seria adicionalmente importante manter a cesta de consumo do indicador atualizada para manter o Banco Central (BC) informado e subsidiar decisões “mais acertadas” pelo Comitê de Política Monetária (Copom). “Não tenho certeza se com os novos pesos o IPCA vai mudar muito, mas é fato que dez anos é muito tempo”, diz Braz.
Luis Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, acrescenta que, com a divulgação da POF 2017/2018, será possível recalcular a inflação oficial brasileira dos últimos anos com base na nova cesta de consumo. Ele lembra que o IPCA foi de 6,5% em 2011, por exemplo. Se o índice daquele ano já tivesse sido medido com a POF de 2008/2009, o índice teria ficado em 6,1%.
“A tendência é que, com a crise, alimentação em domicílio tenha ganhado peso em relação a serviços, por exemplo. Na crise, a tendência das famílias é dar ênfase a artigos de primeira necessidade, como os alimentos e higiene e beleza. Então, quando retropolarmos a inflação dos últimos anos, provavelmente vamos ver índices menores do que foram divulgados”, disse Leal.
O IBGE tem planos de transformar a POF em uma pesquisa contínua. A pesquisa seria atualizada anualmente, como ocorre no Reino Unido e nos EUA. Para isso, a ideia é fazer uma pesquisa detalhada e longa a cada cinco anos. Entre um levantamento e outro, realizar pesquisas menores e menos aprofundadas para atualizar pesos. É um plano ainda sem orçamento e prazo. A tendência é que não seja colocado em prática antes do Censo 2020.