Novos hábitos vão mudar cara da inflação

Novos hábitos vão mudar cara da inflação
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Novos hábitos vão mudar cara da inflação

Novos hábitos vão mudar cara da inflação | Força Sindical .

Atualizada pela última vez entre 2008 e 2009, essa cesta de bens e serviços consumidos pelas famílias exibe ainda itens cada vez mais obsoletos, desde “locação de DVD” à compra de “CD e DVD”, além de “filmadora”.A boa notícia é que a distância entre esses novos hábitos e o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que orienta o sistema de metas de inflação, poderá ser eliminada a partir do ano que vem, quando serão publicados os resultados da Pesquisa Orçamentária Familiar (POF) 2017/2018 – pesquisa do IBGE que mede o perfil de consumo das famílias e orienta pesos de bens e serviços no índice de inflação.

Segundo André Martins, gerente da POF, a pesquisa está em campo desde junho do ano passado. No fim de março, 56 mil domicílios haviam sido abordados pelos agentes do IBGE, 74% dos 75 mil domicílios previstos em 1.900 municípios. Ele diz que mil pessoas estão envolvidas na realização da POF, a primeira do instituto a usar tablets para preencher questionários.

“A pesquisa vai captar tendências como TV com programação sob demanda, consumo de aplicativos para celular. O questionário também vai captar mais detalhadamente os gastos com animais de estimação. Toda essa coleta será concluída em junho. Os resultados serão disponibilizados no início de 2019”, disse o gerente da POF, acrescentando que a taxa de rejeição – domicílios que não quiseram ou não puderam participar da pesquisa – está em 10%, dentro dos padrões.

A Pesquisa de Orçamento Familiar foi a campo pela última vez há quase dez anos, entre 2008 e 2009 – embora a recomendação internacional seja de realizá-la a cada cinco anos. O atraso tem origem na histórica restrição orçamentária do IBGE. No Reino Unido, que realiza a pesquisa a cada ano, o índice incorporou há mais de três anos itens como “streaming” de vídeos e cigarros eletrônicos.

Segundo Fernando Gonçalves, gerente do IPCA, o IBGE não acompanha o comportamento de preços desses serviços da nova economia digital. Até porque seria inútil acompanhá-los, já que o IBGE não sabe quanto eles pesam no orçamento das famílias para lançá-los no IPCA. O índice mede preços de bens e serviços consumidos por famílias com renda mensal de um a quarenta salários mínimos.

Para Gonçalves, a atual falta de atualização não tornaria o índice ruim. Ele lembra que os pesos de bens e serviços são atualizados também pela variação de preços – ou seja, quando um produto fica mais caro, ele pesa mais no índice. Além disso, ‘locação de DVD’ pesa só 0,11% no IPCA, por exemplo. O gerente prefere não dar prazo para a atualização. Quando o IBGE realizou a POF 2007/2008, a reponderação do IPCA ocorreu só em 2012.

“Acho que grupos como alimentação, transporte e habitação tendem a continuar com peso importante no índice. O que pode mudar são seus componentes, com a saída de um item e a entrada de outro. No campo da alimentação, que representa um quarto do IPCA, não se inventou nada desde a última pesquisa. Escola, aluguel, transporte público e gasolina continuam sendo componentes importantes do custo de vida”, disse.

Segundo o economista André Braz, coordenador do Índice de Preço ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembra que a última POF foi realizada em momento de maior “pujança” da economia, quando o perfil de consumo tenderia a ser diferente do atual ciclo de saída da crise. Naquela POF retratou-se o consumo de classes sociais em ascensão, como carro novo e cursos extras.

“Como a economia é cíclica, você precisa renovar esses pesos com frequência. Despesas com serviços privados tendem a ter peso menor no orçamento hoje, por causa da crise e desemprego. Famílias não abrem mão de alimentação, mas podem deixar de ir ao cinema”, afirma o Braz. “Se demorar muito a identificar mudanças de consumo, você corre o risco de jogar uma inflação irreal no índice de preços.”

Como o IPCA baliza a política de monetária, o economista afirma que seria adicionalmente importante manter a cesta de consumo do indicador atualizada para manter o Banco Central (BC) informado e subsidiar decisões “mais acertadas” pelo Comitê de Política Monetária (Copom). “Não tenho certeza se com os novos pesos o IPCA vai mudar muito, mas é fato que dez anos é muito tempo”, diz Braz.

Luis Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, acrescenta que, com a divulgação da POF 2017/2018, será possível recalcular a inflação oficial brasileira dos últimos anos com base na nova cesta de consumo. Ele lembra que o IPCA foi de 6,5% em 2011, por exemplo. Se o índice daquele ano já tivesse sido medido com a POF de 2008/2009, o índice teria ficado em 6,1%.

“A tendência é que, com a crise, alimentação em domicílio tenha ganhado peso em relação a serviços, por exemplo. Na crise, a tendência das famílias é dar ênfase a artigos de primeira necessidade, como os alimentos e higiene e beleza. Então, quando retropolarmos a inflação dos últimos anos, provavelmente vamos ver índices menores do que foram divulgados”, disse Leal.

O IBGE tem planos de transformar a POF em uma pesquisa contínua. A pesquisa seria atualizada anualmente, como ocorre no Reino Unido e nos EUA. Para isso, a ideia é fazer uma pesquisa detalhada e longa a cada cinco anos. Entre um levantamento e outro, realizar pesquisas menores e menos aprofundadas para atualizar pesos. É um plano ainda sem orçamento e prazo. A tendência é que não seja colocado em prática antes do Censo 2020.

 

Fonte;Força sindical

 

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